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Cada um com seu horizonte

e seu alter ego [Victor Hugo Mafra]

:: Quinteto Violado - Antologia do Baião (1977) ::

Published by Victor Hugo Mafra under on 18:08


Naquele ano de 1945, a música popular brasileira vivia entre o samba-canção e os ritmos importados, com absoluta predominância do bolero. Atravessávamos uma das muitas fases de invasão cultural em nossa música e até as canções puras dos sertanejos estavam se alterando, recebendo retoques abolerados ou sendo compostas dentro das rigorosas estruturas do próprio bolero. É bom acrescentar que ainda por essa época, o nosso samba-canção (que era apontado como a moderna forma de cantar modinhas) sofria alternações rítmicas profundas e dava origem a um outro tipo de música que foi logo sendo batizado de “sambolero”. Quem duvidar, pode percorrer os arquivos dos pesquisadores, que há de encontrar melodias impressas ou gravadas com a designação genérica de “sambolero”. Portanto, um panorama bem mais internacional do que nacional, em matéria de música popular, no Brasil.

Um dia agosto desse mesmo ano de 1945, Luiz Gonzaga foi ao encontro de Humberto Teixeira, cunhado de Lauro Maia, que o indicara para ser seu parceiro numa empreitada que ele se propunha realizar. É que Luiz pretendia lançar, no Rio, a autêntica “música do Norte”. Precisava de alguém que o ajudasse, que escrevesse letras para as melodias que sabia fazer. Houve entendimentos imediatos, facilitados pela identificação dos mesmos ideais que ambos alimentavam e o “comum acordo” chegou quando falaram em “baião”. Ora, o “baião” ou “baiano”, era uma das muitas danças populares (da Bahia prá cima), onde se usa as palmas, o sapateado, o estalar de dedos, além de uma coreografia em tudo descendente dos primitivos batuques, inclusive com a umbigada, que caracteriza a troca do par de dançarinos-solistas, em meio a uma roda. Só seu ritmo, entretanto, entrava aqui nas cogitações de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, dispostos a propagá-lo com o auxílio de linhas melódicas cantadas, baseadas no rojão (aquela espécie de intermezzo musical dos cantadores em desafio), e, principalmente, fundamentadas no sistema modal (anterior ao tonal), com o sétimo grau da escala, abaixado. Em dó maior, por exemplo, o si é sempre bemol. Foi assim que num piscar de olhos, nasceu o “Baião”. (Eu vou mostrar prá vocês como se dança o baião... etc.), resultado daquele encontro histórico e primeiro êxito de um gênero novo que viria suplantar tudo, inclusive desbancar a tal invasão de ritmos importados, com predominância do bolero.

O baião, agora gênero musical além de dança (tal como aconteceu com o samba), estava vitorioso, principalmente porque foi logo adotado por outros autores do Sul, como Hervê Cardovil, e recebeu a adesão imediata de nordestinos como Luiz Bandeira, Zédantas, Guio de Moraes e tantos mais, que, dedicando-se ao baião, ajudaram a abrasileirar, outras vez, a nossa música popular. O sucesso foi tão grande que lá fora de nossas fronteiras houve logo forte ressonância... Lembrando –se do “Baião de Ana”? 

É claro que o novo gênero haveria de fazer escola, que haveria de arrastar consigo uma legião de outros gêneros satélites, como a toada, o xote, o xamego, o rojão, o côco, etc., e haveria, também, de dar campo ao trabalho de grandes nomes desta área:  Jackson do Pandeiro, Carmélia Alves, Rosil Cavalcanti, João do Vale, Dominguinhos, o próprio Quinteto Violado, enfim, uma porção de outros mais. Nomes, agora, históricos, porque, na época, ninguém estava pensando na importância do movimento que eclodiria, espontaneamente, a partir daquele dia de agosto de 1945, quando Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira se encontraram num escritório da Avenida Calógeras, Aqui no Rio, tentando dar asas ao poder criativo de ambos e procurando fazer com que os brasileiros contassem um pouco mais a nossa música, se preocupassem um pouco mais com a nossa cultura, que é imensa, rica e bela e que está aí, à disposição de todos aqueles que a desejarem cultivar.
Paulo Tapajós

Ficha Técnica:
Produzido e Dirigido por: Paulinho Tapajós.
Direção Musical: Toinho Alves.
Mixagem: João Moreira, Toinho Alves, Paulinho Tapajós.
Técnicos de Gravação: João Moreira Chocolate (Faixa B-1). 
Auxiliares de Estúdio: Aníbal, Julinho “Nescau”.
Estúdio: Phonogram.
Corte: Luici Hoffer.
Direção de Arte: Aldo Luiz.
Lay Out e Arte Final: Jorge Vianna.
Texto: Paul Tapajós.

Músicos:
Toinho Alves – Voz, Baixo Acústico.
Marcelo Mello – Voz, Violão.
Fernando Filizola – Voz, Viola, Sanfona, Ritmo.
Luciano Pimentel – Bateria, Ritmo.
José – Flautas.
Quinteto Violado – Arranjos.
Participação especial de Luiz Gonazaga – Voz, faixa: Asa Branca, Acordeon.

Lado A
1. Asa Branca – Luiz Gonzaga
2. Madame Baião / Xanduzinha / Adeus, Maria Fulô
3. São Jooão do Carneirinho / São João na Roça / Polca Fogueteira
4. Derramaro o Gai / A mulher do Aníbal / Sebastiana
5. Na terra como no Céu / Fica mal com Deus
6. Sodade, meu bem, sodade / Mulher Rendeira / Meu Pião

Lado B
1. Xote das Meninas / O Chêro da Carolina / Peba na Pimenta / Severina Xique Xique
2. Acauã / Briga de Faca / Corisco
3. Canção da Fé / Baião da Penha / Frei Damião
4. Só quero um Xodó / Lamento Sertanejo / Forró do Dominguinhos
5. Pisa na Fulô / Cintura Fina / Riacho do Navio
6. Algodão

BAIXE p/ LEVANTAR:


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